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Quem está realmente em risco? Desvendando a migração para o mercado negro do jogo no Reino Unido

| By iGB content team
Enquanto novas pesquisas destacam a popularização do jogo ilegal, a indústria e os reguladores enfrentam uma pressão crescente para agir.
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O setor de bets online do Reino Unido se vê numa encruzilhada crucial. O aumento do número de operadores ilegais e sem licença provocou uma preocupação generalizada no setor quanto à perniciosidade do mercado negro, não só por razões econômicas, mas também pelos perigos que representa para os jogadores vulneráveis.

Pesquisas recentes publicadas pela Comissão de Jogos gerou uma discussão crítica sobre duas questões urgentes: Quem está verdadeiramente em risco de migrar para o mercado negro? E o que deve ser feito sobre isso?

As respostas são complexas e preocupantes.

Uma conclusão importante do relatório da Comissão de Jogos sobre jogos ilegais desafia a narrativa de que apenas indivíduos autoexcluídos e usuários menores de idade são suscetíveis às atividades do mercado negro.

A pesquisa revela que os perfis demográficos dos consumidores de jogos legais e ilegais são quase idênticos – principalmente homens, indivíduos mais jovens de 18 a 24 anos, jogadores frequentes e aqueles com mais de 8 pontos no Índice de Gravidade do Problema do Jogo (PGSI, na sigla em inglês).

Um tema recorrente na pesquisa da Comissão de Jogos é a falta de compreensão do público em relação à regulamentação. Elizabeth Dunn, sócia do escritório de advocacia Bird & Bird, afirma que esta é uma preocupação fundamental.

“Um ponto que se destaca é o reconhecimento da comissão da desconexão entre os consumidores que reconhecem a importância dos operadores licenciados e sua compreensão real de como verificar o status do licenciamento”, diz Elizabeth à iGB. “Isso pode ser parcialmente devido à falta de conscientização dos consumidores, mas também é um indicador do aumento da sofisticação do mercado negro nos últimos anos.”

Alasdair Lamb, associado sênior do escritório de advocacia CMS, destaca uma conclusão importante do relatório: “Esse envolvimento com sites ilegais geralmente é complementar, e não exclusivo, com a maioria dos entrevistados relatando que prefere gastar tempo e dinheiro em sites legais.”

Uma oportunidade e uma responsabilidade

Elizabeth Dunn acrescenta que isso representa tanto uma oportunidade quanto uma responsabilidade para os reguladores e operadores se envolverem em mais campanhas educativas voltadas para o consumidor, a fim de amenizar essa questão — uma observação que está em consonância com as recomendações da Comissão de Jogos.

Este ponto é reiterado pelo Conselho de Apostas e Jogos (BGC, na sigle em inglês), que cita um estudo recente da Frontier Economics estimando que 1,5 milhão de britânicos estão agora apostando em sites ilegais – gastando, segundo relatos, até £ 4,3 bilhões anualmente.

“Os sites de jogos ilegais atraem uma gama preocupante de clientes”, afirmou um porta-voz da BGC. “Mais de um em cada cinco jovens de 18 a 24 anos que apostam já usa sites nada seguros e não regulamentados. Muitos sites do mercado negro visam especificamente os mais vulneráveis, incluindo aqueles que se autoexcluíram de empresas de apostas regulamentadas.

O BGC alerta que, sem uma regulamentação equilibrada e uma tributação estável, mais consumidores — incluindo os tradicionais — podem ser empurrados para um território mais arriscado, prejudicando a segurança pública e desviando dinheiro dos operadores licenciados e, em última instância, do Tesouro Público.

Desafios ao relatório da comissão

Os resultados do relatório da Comissão de Jogos contradizem as interpretações apresentadas em eventos recentes, como o fórum Peers for Gambling Reform (Amigos pela Reforma dos Jogos), onde foi sugerido que apenas jogadores autoexcluídos e crianças corriam o risco de migrar para o mercado negro.

De acordo com Ismail Vali, CEO da Yield Sec, trata-se de um caso de interpretação errada por parte da Comissão de Jogos – em parte, explicou ele, porque a pesquisa da comissão não inclui menores de idade em seus dados.

A sua empresa usa vigilância de dados de nível militar para acompanhar o comportamento do mercado negro online no Reino Unido. Eles também elaboraram um relatório sobre o assunto, que foi publicado no início de setembro.

“Isso mostra claramente que as pessoas que estão envolvidas com o jogo ilegal são pessoas que não têm outra opção. De toda a promoção ilegal de jogos de azar no Reino Unido, 84% dela é impulsionada por pesquisas do tipo “fora do GamStop (o esquema de autoexclusão dos jogos)”. Sim, há um movimento generalizado no mercado em direção ao jogo ilegal no Reino Unido, mas, em geral, o dinheiro vem de crianças e de pessoas que se autoexcluíram.

Ele enfatiza que corretores de dados, algoritmos de redes sociais e manipulação de SEO estão sendo usados para atingir diretamente aqueles que se autoexcluíram ou mostraram sinais de dependência.

As conclusões da Yield Sec afirmam que o mercado negro no Reino Unido explodiu – passando de 0,43% do mercado em 2020 para quase 9% em 2025 – impulsionado tanto por táticas de marketing direcionadas quanto pela pressão regulatória sobre os operadores de jogos de azar legais.

Em seu próprio relatório, a Yield Sec constata que atualmente existem mais de 500 operadores ilegais de apostas esportivas e cassinos atuando ativamente no Reino Unido, e mais de 1.100 afiliados promovendo operadores ilegais.

Exploração da vulnerabilidade

No centro do debate do mercado negro está o GamStop, o sistema nacional de autoexclusão do Reino Unido.

O GamStop – que desde 2018 tem mais de 600.000 usuários registrados para autoexclusão de todos os sites licenciados no Reino Unido – reconhece que impedir atividades ilegais é um grande desafio, mas afirma que está tomando medidas:

“Reconhecemos que há mais trabalho a ser feito para remover toda a publicidade de cassinos que contornam o GamStop e para impedir a publicidade desde o início. Estamos em contato regular com a equipe de inteligência e fiscalização da Comissão de Jogos e acolhemos com satisfação o Projeto de Lei sobre Crime e Policiamento, que dará à Comissão de Jogos maiores poderes para agir rapidamente e retirar endereços IP e nomes de domínio associados a sites ilegais.

A GamStop também aponta para uma avaliação da Ipsos de usuários de operadores não licenciados:

“Apenas 8% de mais de 4.600 usuários disseram que estavam usando operadores de jogos de azar não licenciados ou ilegais. Embora as atividades dos operadores do mercado negro sejam uma preocupação, é importante que mantenhamos a questão em perspectiva”, disse o porta-voz.

Esta resposta da GamStop não agrada ao CEO da Yield Sec, que a considera uma minimização de uma questão urgente.

“Se você observar a trajetória na Grã-Bretanha, é assustador. Desde que falamos sobre isso pela primeira vez em 2020, o número dobrou a cada ano. E agora estamos nesta altura horrível”, disse Ismail.

Ele alerta que o número de usuários em plataformas ilegais provavelmente continuará a crescer, a menos que o problema seja devidamente gerenciado – especialmente em um momento em que sites ilegais de streaming de TV e filmes (onde sites ilegais de jogos de azar tendem a anunciar) estão se tornando mais populares. Este é outro fator que deverá impactar o mercado convencional.

A quem cabe a responsabilidade?

De modo geral, disse Ismail, a responsabilidade por um ambiente de jogos online mais seguro no Reino Unido recai sobre a Comissão de Jogos e a GamStop.

“Se você cria um esquema como o GamStop e diz aos clientes vulneráveis que eles estão seguros, certamente deve garantir a segurança deles”, acrescenta. “E eles não estão seguros na Grã-Bretanha neste momento.

Vá atrás da cadeia de suprimentos, vá atrás da publicidade, vá atrás do conteúdo das redes sociais. Isso é o que se pode mudar aqui, agora, hoje.”

Elizabeth Dunn, do escritório de advocacia Bird & Bird, enfatiza o desafio regulatório para a indústria.

“O principal desafio continua sendo a capacidade limitada da comissão de tomar medidas eficazes contra operadores offshore não licenciados”, sugere ela. “O regulador tem se concentrado cada vez mais no mercado B2B regulamentado para impedir o fornecimento de jogos a operadores não licenciados, e espero que essa abordagem continue.”

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